Um gesto de fé. É o que tem vindo a acontecer no Chile nas últimas semanas depois da população ter decidido começar a utilizar o metro e os autocarros sem pagar pelas suas passagens. As imagens não são bonitas e, à semelhança, com o que tivemos com a Amazónia e com a Sibéria em chamas este ano, pouco se fala e muito se cala nas notícias internacionais.

Contudo, e felizmente, o Instagram dá-nos mais do que imagens bonitas e até nos traz as imagens reais (sendo verdadeiras) de screenshots de mensagens de texto de chilenos explicando aquilo que estão a passar e a mostrar ao mundo que quer ver, que eles estão a sangrar pelo que é a Vida.

Parece-me, no mínimo, uma causa nobre quando, de repente, os valores do bilhete do metro passam a ser praticamente 27% do salário mínimo da população chilena.

A 19 de Outubro de 2019, começaram os protestos num país que se insurge sobre a falta de capacidade financeira que vem de décadas. E claro, desta vez, neste quase 2020 há pessoas que já não querem mais.

As pessoas novas já não querem os governos velhos.

Os governos velhos já não têm espaço neste mundo, na verdade eles já não são capazes de segurar para eles aquilo que as pessoas lhes têm vindo a exigir. Os governos velhos tem vindo a cair lentamente para dar lugar a governos novos e os governos novos têm vindo a nascer com uma mescla diferente. São classes políticas que misturam o socialismo radical, com um centralismo confuso e uma direita desesperada. Mas ainda assim faz um padrão interessante… Não sendo demais, não sendo em exagero, se se poder coabitar e não se acolher o extremismo então que venham todos e que tragam alguma diferença ao panorama político e, por consequência, sociais.

Agora, no Chile, o que está a acontecer é não mais do que dizer que as soluções extremas de um governo, assustado e zangado, se estão a fazer ouvir.

Nas ruas do Chile a população está a manter o comércio intacto mas ataca a polícia, saltam os torniquetes do metro enquanto erguem as bandeiras do Chile e reivindicam maior igualdade.

Do lado oposto, baleiam-se adultos e crianças que se recusam a pagar o bilhete do autocarro e ainda que sejam balas de borrachas, são balas de borracha que perfuram pernas.

Acho incrível quem luta pelos seus direitos, quem tem a resiliência de se insurgir por aquilo em que acredito, mas fico triste que os motivos que tragam o protesto ao de cima seja tão “simples” como a sobrevivência!

Os governos dos países latinos nunca foram um exemplo de justiça e, na dúvida de como calar a malta, vem sempre – mais tarde ou mais cedo – uns confrontos directos com bombas de gás e balas de borracha. Mas olhemos para isto assim: Se se matam pessoas para matar o protesto, o protesto não vai morrer, o protesto vai escalar. E na minha opinião, ainda bem. Que escale o protesto sempre, mas que – por favor – não se matem as pessoas!

Sinto que ficámos tão habituados a ter guerras monumentais à nossa volta que nos esquecemos de como é grave morrerem 20 pessoas no Chile ou na rua ao lado porque não têm como sustentar as famílias ou pôr-lhes comida no prato. E sinto que, por todo o mundo, crescem a passos largos duas facções sociais (não políticas neste caso):

  • os que se cansaram das décadas de promessas de melhorias sociais e económicas e decidiram empreender para protestar.
  • os que se cansam das mesmas promessas todos os dias mas protestam pelo queixume e pelo marasmo.

A estes últimos só desejo sorte. Falo dos novos e dos que podem e escolhem não ser a Mudança que gostariam de ver acontecer, falo dos apáticos por opção.

Aos outros, aos insurgentes responsáveis e aos que sabem que têm um papel activo na sociedade só posso dar o meu Ámen! Viver em países da América Latina deverá ser um enorme desafio. É a saúde, é o narcotráfico, é a insuficiência de recursos alimentares, são os baixos salários,.. Nicarágua, Peru, Equador, Chile, Cuba, … todos têm a sua quota parte de violência pelas condições em que estas pessoas vivem à gerações.

Agora, neste quase 2020, vieram os “miúdos” das Escolas e Universidades dizer que, no fundo, já nem lhes apetece muito estudar para uma fantasia. Se vão estudar e criar fundações para as suas vidas eles vão estudar com Tudo. Vão reclamar pelas condições nas salas, vão reivindicar pela falta de recursos na educação e vão inflamar-se pelas, gotas de água num copo cheio, que são os 30 pesos no bilhete do metro.

O lado elegante destes batalhas sociais é olhar para as pessoas como cada vez mais informadas e educadas para as suas as causas. É ver que se buscam resultados em vez de se esperar que os governos alternem entre si.

O outro lado, o lado mais cru, é perceber que – como em todas as fases da História – há mártires, há heróis e há os que são apanhados no meio, que não passaram pelos pingos da chuva.

O lado não bonito e não heróico é o ver que há ecossistemas inteiros a cair à nossa volta enquanto pessoas que morrem de bandeiras nas mãos e há animais queimados no caminho.

E, a meu ver, ainda há um outro lado… O da esperança. Ver que a Consciência é dura e rasga a pele, antecede a batalha mas é base da Conquista.

A Consciência por um Planeta melhor, mais justo, mais igual, mais uno, mais verde e mais azul! E os governos velhos vão ter que se reinventar.

Sinto pelas Pessoas (do Chile e não só) o mesmo que sinto pelas Florestas que ardem, uma grande e profunda admiração! Não dá para diferenciar porque somos todos feito com os mesmos Elementos, temos a mesma Mãe como origem.

O que nos falta a nós – pessoas – é ter a mesma resiliência e amor pela Vida que têm os animais e as plantas!

Pelos chilenos, estes últimos dias, sinto particularmente empatia. É um gesto de fé. E, às vezes, eu só gostava que fôssemos um bocadinho mais assim por estes lados!

Até já,

Carolina ?