Há cerca de 24 horas, a Margarida Macedo, ilustradora portuguesa a viver em Berlim, usou a sua arte para expressar uma das realidades que se vive no país que alberga, pelo que dizem, a 4ª cidade mais cénica do Mundo.

Com o turismo, este país viu crescer o PIB, o alojamento local e a hotelaria, a construção e os empregos. Com o turismo, geraram-se mais de 13,7 mil milhões de euros em receitas no ano de 2017 e, ao que parece, aumentaram cerca de 182 mil novos postos de trabalho. Isto até levava a pensar que somos todos uma cambada de ingratos porque afinal temos forma de trabalhar e andamos aqui a queixar-nos.

Porém, quando hoje fazia o meu scroll down matinal pelo Instagram, dei de caras com o trabalho da Margarida e foi quase automático o sentimento de tristeza que se abateu sobre mim.

Realmente, se considerarmos como emprego a necessidade de Meet & Greeter no aeroporto ou Airbnbs por essa cidade fora, de facto, o que não nos falta por aí é trabalho em massa. Mas isto até é giro quando temos 18 anos e queremos começar a pagar as poucas despesas que temos ou queremos juntar dinheiro para ir viajar. Deixa de ser engraçado quando tens 19 anos mas afinal nem foste para a Universidade porque não tiveste possibilidade e tentas pagar a tua casa arrendada com os 600€ que vais fazendo, a receber turistas por aí…. Também não é de rir quando trabalhas 4h ou 8h e ainda tens um outro emprego – nomeadamente na UberEats ou num bar à noite – ou divides as tuas horas entre uma grande empresa e o teu trabalho como freelancer.

Tudo isto para, no fim de 22 dias, receberes a quantia média de 750€ mensais –  quando isso acontece. E sim, diz-se que o salário médio em Portugal aumentou para 951€ face a 2018, o que seria esperançoso e reconfortante se não estivéssemos num país onde grande parte da nossa população empregada tem o ensino superior ou se a maior percentagem de população em actividade não recebesse o salário mínimo de 600€.

E não estou nada a ser pessimista: MESMO QUE não houvesse esta discrepância, continuaria a questionar-me como é que as pessoas estariam a viver com um tecto médio de 2500€ por mês

E por isso mesmo!, não vou sequer estender-me à realidade dos idosos – sim, aqueles que deram o corpo ao manifesto décadas e décadas, num país ainda mais precário que o de hoje e que agora vêm nada mais que precariedade. Esses mesmo.

Há um bocadinho de zanga aqui sim, mas há muito mais tristeza. Sinto-me triste ao mostrar com honra e orgulho o meu lindo país a quem vem de fora sem poder esconder o resto… “É tudo tão barato no teu país!” , “Para nós não é. Vamos de metro para não gastar 6€ num Uber e usamos os descontos do cinema para pagar só um bilhete. Viajamos para a Europa porque, felizmente, há viagens a 40€ e ainda vivemos em casa dos pais aos 28 anos. Ou então, trabalhamos das 9h às 17h e não temos dívidas, mas não saímos do escritório antes 20h porque nos dizem que somos insubstituíveis, quando na verdade acumulamos numa pessoa o trabalho de 3. E se vamos jantar fora, procuramos os pratos a 9,50€ onde há menus já feitos ou all you can eat, para não rebentar com as finanças de uma só vez.”

Poupar devia ser uma escolha e não uma obrigação. Pagar menos por um serviço ou por um bem devia ser uma opção e não um dever para manter a subsistência.

Basta andar na rua para ouvirmos as pessoas a falar de como tentam ser a Mudança que querem ser no Mundo mas começam a sentir que é em vão… A Margarida deveria estar a ilustrar as paisagens do país dela e não os ordenados miseráveis; eu, deveria estar a escrever sobre um país que recebe o WebSummit como o evento incrível que é e não com a vergonha de ter entradas a 1500€ (a falar por baixo), que por acaso são duas rendas de casa de algumas pessoas a viver sozinhas (!!), para o mesmo evento que pede voluntários para trabalhar – com a motivação inacreditável de ter acesso a todas as talks.

Como assim ficamos felizes porque o desemprego reduziu desde o ano 2000? Em 20 anos aumentámos 300€ no salário mínimo nacional? Como assim temos uma taxa inacreditável de população com mais do que uma Licenciatura a ganhar 800€ e a gastar 100€ para gasóleo ou transportes, outros 150€ para o supermercado e 700€ numa casa?!

Como assim são sinais de mudança querer pôr o nosso negócio a andar mas não recebermos valor monetário por ele, porque infelizmente as pessoas têm outras prioridades? E como assim andamos tão zangados com a realidade, e com tanto medo de perder o que temos, que não se dá ao Outro coisas básicas como uma chave da casa de banho sem precisar de consumir ou uma tomada para o computador num café porque se gasta electricidade?!

Eu não acredito nada que a culpa dos nossos problemas esteja no mundo exterior… Acredito sim, que por mais difícil que seja, parte da responsabilidade pode estar lá fora, longe do nosso controlo, mas a grande decisão de Criar algo diferente está dentro de cada Um. Ser a Mudança que queremos ver no Mundo é uma tentativa diária. É procurar fazer Melhor a nós e a quem está à nossa volta no meio da Dualidade que é tomar essas decisões com todas as tentativas falhadas que isso acarreta, todo o cansaço e às vezes frustração.

Continuo a acreditar que, nesta geração, o nosso bater de pé vai levar-nos a bom porto. Mas, principalmente, acredito que deve fazer-se pelo Bem, mostrando que não há mal nenhum em dar um bocadinho do que temos a quem nos pede na rua porque, mais tarde ou mais cedo, irá voltar para nós. Estar zangado é necessário mas não pode ser o fim último, e deve dar-se um passo atrás quando é o caso de admitir que, pela zanga, afinal não iremos chegar a lado nenhum.

Por isso, acredito sim, que esta zanga interna deve ser o motor da mudança e não uma desculpa para permanecer no mesmo sítio, deve ser a Oportunidade para procurar ir mais longe, ir além do visível. Mudar de sítio se for necessário ou abraçar os medos e fazer aquilo que nunca pensaríamos fazer.

Shout out! à ilustração da Margarida e ao Universo que, logo de manhã, me fez bater de frente com algo que me tinha tirado o sono na noite anterior <3

 

Até já,

Carolina 🙂